Esqui-Montanhismo À descoberta de um desporto #1
Primeiro artigo da rubrica "À descoberta de um desporto" que dá a conhecer um pouco sobre a prática de uma modalidade desportiva. A primeira modalidade aqui a ser falada é o Esqui-Montanhismo, num texto escrito pela nossa equipa nacional

A modalidade Esqui-montanhismo foi designada pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, que tutela este desporto, tendo em conta o nome que lhe é dado pela federação internacional que regula a atividade, a International Ski Mountaineering Federation (ISMF). Este desporto apelida-se em inglês Ski mountaineering e Ski Alpinisme em francês, pelo que não foi difícil chegar à designação portuguesa.
O esqui-montanhismo é uma modalidade competitiva que consiste em percorrer com esquis e a pé, individualmente ou em equipa, um itinerário de montanha ou alta montanha que segue um percurso estabelecido num terreno de características alpinas invernais, com uma ou mais subidas e descidas.

Os atletas devem subir e descer pelos seus próprios meios, utilizando técnicas e equipamento semelhantes à atividade de lazer apelidada de esqui de montanha. Com a ajuda de esquis equipados com uma fixação móvel na subida (como no esqui de fundo) e bloqueada na descida (como no esqui de pista), o esquiador montanhista utiliza umas peles sintéticas que cola sob os esquis, para efetuar as subidas. Estas peles autocolantes são retiradas dos esquis antes das descidas que se assemelham a uma descida "fora de pista". É uma modalidade que pode usufruir das estações de esqui implementadas, mas sem ser um fator indispensável para a realização de competições.
As competições de esqui-montanhismo são reguladas por regras que definem as características do equipamento utilizado. Os esquis, as fixações e as botas são leves, mas têm que apresentar um peso mínimo. É obrigatório levar capacete, pá para a neve e um aparelho emissor de sinal, para detetar um atleta que fique soterrado em caso de avalancha. Por vezes, é necessária a utilização de corda, crampons e arnês, nas passagens mais técnicas.
Os países com mais atletas e maior tradição na modalidade são os do centro da Europa como a França, Itália e Suíça, locais onde a modalidade está bem implantada. No entanto, outros países como a Alemanha, Áustria, Espanha e Suécia possuem vários atletas que alcançam geralmente lugares de topo. Já em 1924, em Chamonix, a modalidade antecessora do esqui-montanhismo e do Biatlo, a "Patrulha Militar", fez parte dos primeiros Jogos Olímpicos de Inverno. Por isso, não é de estranhar que o esqui-montanhismo obtivesse, em 2014, o reconhecimento do Comité Olímpico Internacional, e que em 2020 seja uma das modalidades dos Jogos Olímpicos da Juventude que vão ter lugar em Lausanne, na Suíça. Prevê-se que futuramente venha a fazer parte dos Jogos Olímpicos de Inverno.

Dadas as características geográficas de Portugal que limitam a prática do esqui de montanha, existem apenas algumas dezenas de praticantes da modalidade, sendo difícil contabilizá-los porque a praticam essencialmente no estrangeiro, por ex. nos Pirenéus e Alpes. A passagem dos praticantes de esqui de montanha para as competições de esqui-montanhismo é ainda mais reduzida, contando-se por uma mão todos os atletas que praticam esta atividade competitiva. Alguns vivem no estrangeiro e apenas dois residem em Portugal. Mais difícil se torna a situação das competições de esqui-montanhismo em Portugal, que não existem pela falta de clubes com atletas suficientes atraídos pela competição e pela falta de condições climáticas para montar competições.
Poucos desportos se podem gabar de serem tão completos para uma preparação física total, como o esqui de montanha e a sua modalidade competitiva, o esqui-montanhismo. Todos os grupos principais de músculos, tanto da parte inferior, como da secção superior do corpo, são exercitados com o trabalho de "puxar" e "empurrar" todo o corpo do atleta. Mesmo alguns músculos, que se julga não serem muito utilizados, servem para equilibrar e coordenar todo o corpo. Num estudo comparativo, o esqui-montanhismo é uma das modalidades em que o seu praticante queima mais calorias, pelo facto de utilizar todos os principais grupos de músculos em simultâneo.

Se bem que na vertente competitiva, por vezes, apareçam situações anaeróbicas, o esqui de montanha é uma modalidade efetuada sempre num regime aeróbico, porque nenhum grupo de músculos é mais utilizado que outro. Por isso, a duração da atividade pode ser prolongada por várias horas. Um ritmo cardíaco elevado mas sem grandes variações é o que se pretende para fortalecer o músculo cardíaco e melhorar a capacidade de bombear o sangue com mais eficiência. Como o coração bate mais rapidamente, os pulmões também têm que acompanhar a oxigenação do sangue para os músculos e outros órgãos. Este aumento do fluxo de ar fortalecerá os músculos do diafragma, o que vai aumentar a resistência sem "perder o fôlego".
Outros benefícios desta atividade no coração do seu praticante passam pela redução do colesterol, mantendo-o em níveis saudáveis. Para além disto, a absorção de luz solar pela pele (cara ou braços descobertos, pelo arregaçar das mangas), é a única fonte natural de Vitamina D, nos meses de Inverno, necessária para prevenir doenças do coração, hipertensão e para manter os ossos fortes.
Este desporto é um dos que menos impacto provoca nos ligamentos e cartilagens dos atletas. Ao contrário da corrida, não sobrecarrega os pés, joelhos e ancas com esforços que podem ser violentos. Em comparação com o esqui de pista, também não causa lesões tão graves nos ligamentos, por ter as fixações dos esquis às botas soltas no calcanhar. Por ser também um desporto mais unidirecional, em que as viragens não são tão pronunciadas como noutros desportos, os músculos, ligamentos, cartilagens e discos são mais poupados. Por outro lado, como os grupos de músculos são coordenados e equilibrados no seu esforço, a postura do corpo é correta e daí uma redução de lesões musculares crónicas.
O esqui-montanhismo é um desporto completo para o seu praticante, dado que reúne na mesma modalidade as qualidades do esquiador de "descida" (de pista), as qualidades de montanhista ou alpinista nas passagens mais técnicas, as qualidades de estratega (escolha do melhor itinerário, dos colegas de equipa certos, etc.) e as qualidades de resistência física e resistência às condições climatéricas adversas.

Muito mais haverá a referir sobre os benefícios que esta modalidade proporciona a quem a pratica, nomeadamente nos aspetos psicológicos, dado que o contacto com uma bela paisagem de montanha, a prática de um esforço físico prolongado, com a correspondente produção de endorfinas, e a satisfação de ultrapassar diversos desafios, provocam sempre um bem-estar físico e mental que não é facilmente esquecido.
Os cuidados que se devem ter na prática desta modalidade têm a ver principalmente com a segurança do praticante. Dispor do material adequado para as condições do percurso e climatéricas é, antes de mais, uma das primeiras premissas a ter em conta. Outra é adequar o nível físico ao percurso e à disciplina escolhida. Tal como não se escolhe uma maratona para correr sem o treino adequado, também não se passa para uma prova de esqui-montanhismo sem ter a necessária preparação técnica e física, para melhor desfrutar do ambiente em que se está inserido. Porque não é só necessário saber esquiar, é imperativo conhecer algumas técnicas de montanhismo para utilizar convenientemente o material, para ultrapassar os diversos obstáculos presentes no percurso.
No caso dos portugueses, o preço elevado de alguns equipamentos e as deslocações para treinar em zonas longínquas de montanha talvez sejam os obstáculos que se destacam na atração de mais praticantes. No entanto, não são conhecidas quaisquer contraindicações para a prática deste desporto, para além das questões que têm a ver com a segurança dos seus atletas. Desde que seja praticado com consciência, o esqui-montanhismo não apresenta pontos negativos.
Texto escrito pela equipa nacional de Esqui-Montanhismo, sendo o seu responsável técnico João Pedro Queirós